terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Lei Rouanet pode sair de campo e ser substituída por Procultura: o que o Brasil vai ganhar?

Mascarados de Poconé-MT, um dos ícones

da bela e rica diversidade cultural brasileira




A Lei Rouanet, como ficou conhecida a Lei Federal de Incentivo à Cultura, soma 20 anos nesta sexta-feira, dia 23, com um saldo de R$ 9,1 bilhões em captação para promover diversas modalidades culturais. Talvez não chegue aos 21, porque um novo mecanismo de fomento à cultura, o Procultura, deve ser aprovado no início de 2012 pelo Congresso. O projeto de lei do governo neste sentido, o 6722/10, já foi aprovado na Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados.

A substituição da Lei Rouanet, para que outro mecanismo de fomento entre em campo, vem sendo amplamente discutida no setor cultural já há algum tempo. Há gente a favor e há gente contra. Há motivação ideológica, isenta ou puramente mercadológica nas observações, mas ainda falta uma reflexão mais profunda, no sentido da inserção de mecanismos de fomento ou financiamento em um multisetorial projeto cultural para o país, em conformidade com o atual cenário e as perspectivas da conjuntura global.

O mecenato não é novidade na história da cultura, muito pelo contrário. A grande revolução cultural que o Renascimento representou foi em grande parte financiada por mecenas, basicamente da classe mercantil em ascenção.

No século 20 o debate ficou mais ideológico. A doutrina neoliberal tende a deixar o Estado fora do patrocinío cultural, entendendo que poderia haver um eventual dirigismo e privilégios por parte de quem controla os aparelhos estatais. Claro que essa posição deriva em grande parte da crítica feita ao realismo socialista que vicejou durante as décadas de existência da União Soviética.

Por outro lado, e já entrando na realidade brasileira, setores populares entendem que, sem um apoio estatal, deixar a cultura para as leis do mercado seria consolidar, aí sim, os privilégios já existentes. A questão seria como o incentivo cultural poderia existir, mas de forma democrática, descentralizada.

Os defensores do Procultura entendem que esse é o caso. Dos R$ 9,1 bilhões captados através da Lei Rouanet em duas décadas, nada menos que R$ 7,2 bilhões foram destinados a projetos no Sudeste, o que em tese seria explicável, considerando ser a região economicamente mais rica do país. Mas é justo? Somente os estados de São Paulo e Rio de Janeiro ficaram com quase 70% dos recursos. Somados, os estados do Mato Grosso, Amazonas, Mato Grosso do Sul, Rondônia, Alagoas, Amapá, Acre, Roraima e Tocantins ficaram com menos de 0,4% (migalhas?) do bolo da isenção fiscal representada pela Lei Rouanet nestes 20 anos.

Além disso, há a questão de quem se beneficiou dos patrocínios. Os críticos dizem que grande parte dos recursos foi para projetos de grandes nomes da cultura, notadamente da música, segmento mais beneficiado com a Lei Rouanet (R$ 1,8 bilhão entre 1993 e 2011).

Com o Procultura será diferente, argumentam seus arautos. Contra a crítica de que, pela legislação atual, as empresas é que definem quem patrocinam (e com isso podem obter maior retorno de marketing), a nova lei deve prever que 20% do que for captado irá para o Fundo Nacional de Cultura. Por este Fundo, a decisão sobre onde e quanto aplicar ficará para o seu gestor, o governo em última instância. Outra proposta é que todos estados fiquem com ao menos 2% dos recursos - os estados citados ficariam, então, com ao menos 18% dos recursos, e não com os famigerados 0,4%.

Para o governo federal, a nova lei, estabelecendo o Procultura, seria fundamental para mudar a realidade indicada por números como estes, identificados pelo IBGE: 92% dos municípios brasileiros sem cinema, teatro ou museu; 93% dos brasileiros sem nunca ter ido a um museu ou exposição de arte, e 78% ainda desconhecerem o que é um espetáculo de dança.

Mas será mesmo que o fomento à cultura deve se limitar a esse tipo de mecanismo? A experiência de outros países e regiões diz que não. Na Europa, o incentivo à cultura é tratado em outra dimensão. A cultura como ingrediente forte inclusive da economia, além de sua importância em si, de reveladora da identidade de um povo, de espelho de sonhos e anseios coletivos. A cultura responde por 4,5% do PIB europeu e por 3,8% da mão-de-obra daquele continente (em torno de 8,5 milhões de pessoas).

O emblema de como a questão é séria por lá está no Programa Europa Criativa, que acaba de ser aprovado pela União Europeia e que vai valer para o período 2014-2020. Isto, claro, se a crise econômica por lá não for ainda mais grave.

O novo programa prevê o incremento a vários setores artísticos e culturais, com destaque para o cinema, com 900 milhões de euros. Um dos resultados esperados da Estratégia Europa 2020 é que 300 mil artistas e profissionais da cultura sejam beneficiados com projetos para que tenham seus trabalhos conhecidos e reconhecidos além das fronteiras de seus países de origem.

Há muito a Europa faz isso, há muito países europeus de forma isolada fazem isso. O apoio ao cinema local foi fundamental para que vários filmes espanhois tivessem sucesso mundial, o mesmo ocorrendo com filmes franceses e de outros países, fazendo frente e resistindo aos enlatados norteamericanos. Com isso os valores europeus continuam sendo referência, mesmo com a crise econômica que se arrasta. O Programa Europa Criativa estipula que, com o apoio recebido, até 2020 um conjunto de 2.500 cinemas poderá exibir pelo menos 50% de filmes europeus em sua programação. Além disso, 5500 obras literárias deverão ser traduzidas em várias línguas.

País que aspira a uma posição de destaque na comunidade internacional, em um cenário de globalização acelerada, o Brasil deve pensar grande em termos culturais. O seu patrimônio cultural é riquíssimo, pela miscigenação histórica do brasileiro. A contribuição brasileira para uma nova civilização pode ser muito maior, mas para isso a cultura precisa deixar de ser pensada como assunto marginal, com fatias reduzidas dos orçamentos públicos.

Não seria o caso de, além de aprimoramento de incentivos fiscais para a cultura, se pensar em uma emenda prevendo um mínimo de investimento dos orçamentos públicos no setor, como existe na saúde e educação? A cultura é um dos bens mais preciosos de um país, a sua valorização é essencial para o desenvolvimento humano integral, em importância equivalente às necessárias condições ideais de saúde e educação. Então, se vier o Procultura, e se ele representar avanço em relação à Lei Rouanet, que seja um passo para um projeto cultural à altura da riqueza da cultura brasileira. (Por José Pedro Martins)

domingo, 4 de dezembro de 2011

O Doutor Sócrates Brasileiro que conheci, um pensador da cultura


A caricatura dele, na visão do Félix, que também

assinou outras ilustrações do livro




O prefácio assinado pelo Doutor, no qual ele destaca

a importância do futebol para a cidadania




"O tetra no país do surreal", lançado

logo após a Copa de 1994





Por José Pedro Martins



O cara era, é, sempre será, realmente diferente. O Doutor Sócrates morreu na véspera da última rodada de um empolgante, embora com qualidade mais do que discutível, campeonato brasileiro. E justo quando o Corinthians provavelmente se tornará de novo campeão. O jogo com o Palmeiras, que já estava apimentado, ganhou mais um condimento.


Ele nasceu para brilhar, porque sempre foi na corrente contrária. Não foi mestre em jogar de calcanhar, enquanto para muitos boleiros de hoje chutar para frente já é difícil? Como Tostão, outro doutor, não foi sempre uma referência no sentido de que o futebol não é tudo, mas a educação é tudo?


O nome de batismo já indicava tudo. Sócrates, aquele que sabe que nada sabe e por isso foi um dos maiores sábios. Outro que provocou polêmicas em seu tempo. E, além disso, Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, nome enorme, de nobre, que aprendi de cor muito cedo, depois daquele domingo inesquecível em 1974.


Era a primeira vez que veria ao vivo e a cores, em branco e verde, o Palmeiras. Jogo no Estádio Santa Cruz, em Ribeirão Preto. Lotado, para ver aqueles craques que haviam conquistado o bi do Brasileirão em 1972 e 73, liderados pelos magos Dudu e Ademir da Guia. Mas quem brihou durante a maior parte do tempo foi um menino alto, magro, do Botafogo, que logo meteu dois no Leão.

Jogo dificílimo, que o Palmeiras apenas ganhou nos últimos minutos, em uma daquelas famosas arrancadas do Luis Pereira, que também fez dois gols. Virada por 3 a 2. Daqueles dias que a gente não esquece nunca. Logo procurei decorar o nome daquele moleque sensacional, então com 20 anos, que quase estragou a minha festa de estreia nos campos de futebol. A vitória sobre o Fogão foi decisiva para a arrancada que levaria o Verdão a ganhar mais um Paulistão.

Duas décadas depois, o reencontro. Em parceria com a Maria do Rosário, escrevi rapidinho um livro sobre a Copa de 1994. Achava que tinha de dizer alguma coisa, sobre o futebol tecnificado que nos levou ao tetra, naquele importante momento histórico do país, o do Plano Real. Futebol e política (talvez seja melhor dizer futebol e poder) bem juntos, como sempre.

Não pensamos muito em quem convidaríamos para escrever o prefácio. Só podia ser o Doutor, que sempre representou a antítese do futebol cooptado pelas estruturas de poder. Ele que foi um dos idealizadores da Democracia Corintiana e que, ao deixar os campos, prosseguiu sua cruzada pela democracia plena, social, igualitária. Afinal, é Sócrates Brasileiro.

Entrei em contato com ele e o Doutor prontamente aceitou o convite. Achou importante um livro que, como lhe relatei, procuraria mostrar a relevância do futebol na cultura, na política, na história do Brasil. "Existe pouca coisa assim", afirmou. E pediu um tempo para escrever.

Eu não acreditava ainda que ele mandaria o texto. Mas mandou, em seu estilo inconfundível, claro, elegante como sempre foi nos gramados. Leu claramente o sentido do livro, o de que, como o futebol burocrático, tecnocrata, demonstrado nos estádios dos Estados Unidos (com uma exceção brilhante, indicada abaixo), o Brasil poderia estar transitando para um momento provavelmente vitorioso em termos econômicos, mas com evidentes crises na cultura, em seus valores mais íntimos.

Marcamos então um lançamento do livro em um shopping em Ribeirão Preto. Queríamos a presença do doutor, na cidade que o projetou e onde vi aquele jogo que nunca sairá de minha pele. Eu havia morado naquela cidade tórrida, mas com o refresco de ter, vocês sabem, um dos melhores chopes do Brasil. E tinha parentes queridos lá, naquela oportunidade.

Sócrates confirmou que iria e de fato foi ao shopping, no dia e hora marcada. Esperamos, esperamos, vendemos um ou dois livros (lançamento às vezes é assim!), e nada do Doutor. Aí chegaram alguns amigos, que o viram no shopping.... bebendo cerveja. Não chegou a participar do lançamento, infelizmente, mas a nossa gratidão é eterna, por termos um dos poucos livros que ele prefaciou, que honra.

Ele sempre foi uma referência, nesses programas de futebol que na maioria das vezes dizem apenas mais do mesmo. Pouca coisa diferente, raríssimos olhares críticos em relação ao que o principal esporte do país virou, um grande mercado de negócios. O desgosto de Sócrates com os rumos do futebol sempre foi cristalino, ele não escondia nunca o seu sentimento.

Poucos dias antes de mais uma internação e de sua morte, ele repetiu as críticas. Para mim permanecerá o exemplo do jogador que tinha uma postura crítica enorme e que apenas não conseguiu a vitória sobre o álcool. Mistérios da condição humana.

O sinal de que seu legado é vibrante, de que as sementes que lançou frutificaram, eu senti quando conversei no final de 2010 com seu filho, Sócrates Júnior, graduando em Administração da FEA-USP. Ele foi o principal organizador da edição do ano passado do CaipirUSP, a competição universitária entre as unidades da Universidade de São Paulo (USP) no interior.

Joga tênis, futsal e futebol de campo, mas não tem carreira esportiva em mente. Pratica e defende o esporte pela sua importância na formação do cidadão. Esporte para o corpo e para a mente. Sócrates Júnior acredita que o esporte universitário ainda pode crescer muito no Brasil, apesar da histórica falta de apoio no setor. Geralmente são os jovens mesmo que, com garra e determinação, se empenham para organizar as competições.

O esporte como indutor de cidadania, como gerador de saúde, como motor de desenvolvimento.A mente aberta, as idéias em ebulição, o espírito comunitário de jovens como Sócrates Júnior e demais membros da Comissão Organizadora do CaipirUSP.

Para mim é o emblema mais sólido do legado de Sócrates, o sentido de cidadania que o seu filho me transmitiu. O esporte e, em particular, o futebol, pode, sim, ajudar muito para construir um novo Brasil. Descanse em paz, Doutor Sócrates, brasileiro de nome e de todo coração.

PS: Por ironia, ou não, do destino, agora que o Brasil se prepara para receber uma nova Copa, uma das estrelas desse momento prévio é o deputado Romário, aquele que se salvou do futebol burocrático de 1994 e foi fundamental para a conquista do Tetra.

domingo, 27 de novembro de 2011

Povos indígenas defenderão na Rio+20 a cultura como pilar do desenvolvimento sustentável

A cultura como um dos pilares do desenvolvimento sustentável, ao lado dos pilares econômico, social e ambiental. A tese será defendida na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, pelos povos indígenas de todo mundo. O pilar cultural, segundo o documento dos povos indígenas encaminhado à secretaria da Rio+20, deve incluir as tradições culturais e espirituais da humanidade, com seus valores éticos e morais, como uma das estratégias para "nutrir e cuidar da Terra". Com o pilar cultural, defendem os povos indígenas, pode ocorrer um "respeito moral para com a Mãe Terra e seus valores intrínsecos, transcendendo as concepções instrumentais dos serviços dos ecossistemas para o bem-estar humano, no sentido de uma reverência pela sacralidade da vida".

O documento dos povos indígenas para a Rio+20 foi aprovado no encontro mundial realizado em Manaus, Amazonas, em agosto de 2011. O documento assinala que a base da participação dos povos indígenas na Rio+20 é a Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas (UNDRIP), adotada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2007. A Declaração inclui conceitos como o do consentimento livre, prévio e informado dos povos indígenas, a respeito de projetos que possam eventualmente afetar as suas terras e modo de vida.

Outro ponto que será defendido pelos indígenas na Rio+20 é o de que o desenvolvimento sustentável deve incorporar necessariamente a dimensão dos direitos humanos. Do mesmo modo, será reiterada a defesa da proteção e respeito aos direitos dos povos indígenas às suas terras, territórios e recursos, como condição prévia para o desenvolvimento sustentável. Os povos indígenas lembram que historicamente são responsáveis pela conservação sustentável das florestas e outros pontos territoriais de alta biodiversidade. Uma preocupação especial é demonstrada com relação à mineração em áreas indígenas.

Os povos indígenas irão defender, ainda, o reconhecimento da contribuição crucial do conhecimento tradicional e de diversas economias locais na erradicação da pobreza e como pedra angular do desenvolvimento sustentável. Uma inquietação é manifestada em relação ao termo Economia Verde, que ainda não foi claramente definido e será um dos eixos de discussão na Rio+20. A chamada Economia Verde, acentuam os povos indígenas, não deve encobrir a continuidade da destruição ambiental. Pelo contrário, deve estar fundamentada na conservação e e redução dos níveis de consumo de recursos, além da descentralização e apoio a iniciativas locais. No caso de ações de Economia Verde relacionadas aos povos indígenas, estes deveriam participar ativamente em todas as fases de um projeto, desde a concepção, implementação, monitoramento e avaliação, sempre com seu consentimento prévio, livre e muito bem informado. O documento encaminhado à Rio+20 ressalta ainda a importância de valorização do conhecimento tradicional das mulheres indígenas nos métodos de adaptação e mitigação relacionados a ações em desenvolvimento sustentável. E destaca a relevância de considerar as contribuições e visões de futuro dos jovens indígenas nos programas que forem formulados visando o desenvolvimento sustentável e eventualmente aprovados na Rio+20. (Por José Pedro Martins)

Começa nova Conferência do Clima, na África do Sul da Copa de 2010

Começa nesta segunda-feira, 28, e vai até 9 de dezembro a Conferência do Clima em Durban, na África do Sul. Será mais uma oportunidade para a tentativa de um acordo global visando a redução de emissões de gases que provocam as mudanças climáticas. A principal expectativa é sobre uma eventual solução para o período posterior ao Protocolo de Kyoto, que expira em 2012. Em 2010 as atenções mundiais estavam voltadas para a África do Sul por causa da Copa da FIFA. Agora o pais que sofreu todos os impactos da tragédia do apartheid é mais uma esperança em relação ao grande desafio do aquecimento global. Será um sucesso ou mais um fracasso?

A crise econômica que assustou o planeta em 2008 e volta a ameaçar muitos países, em especial na Europa, tirou um pouco o foco dos governantes da questão climática. Há uma incógnita também quanto à atuação em Durban das potências emergentes, em especial a China e a Índia, sem falar na Rússia que tradicionalmente é reticente em termos de mudanças climáticas. Os países industrializados têm-se esforçado para que as potências emergentes também assumam compromissos de redução de emissões, o que a China vem recusando. E a China já é o maior emissor mundial, superando os Estados Unidos.

O Brasil terá um papel muito importante, entre outros motivos porque em Durban terá grande destaque a discussão sobre a proteção de florestas como estratégia essencial no combate ao aquecimento global por razões humanas. O papel das populações locais na proteção das florestas, como os povos indígenas, será nesse sentido muito valorizado. E nesse aspecto o Brasil estará no centro das atenções, em função da polêmica sobre a construção da usina de Belo Monte.

A África do Sul tem a maior proporção de emissão de dióxido de carbono por habitante no continente africano. Isso porque 95% de sua energia elétrica são derivados de fontes fósseis, como o carvão. Neste cenário global e local, não são muitos os sinais positivos de que algo concreto saia de Durban, prevenindo as mudanças climáticas. Mas, como no futebol, no qual o jogo "só termina quando acaba", é preciso manter a esperança, e ver os resultados da Conferência da Convenção do Clima. Um saldo positivo será fundamental para melhorar as expectativas em relação à Rio+20, em junho de 2012, no Rio de Janeiro. Em 2001 Durban sediou a Conferência Mundial sobra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e as Formas Conexas de Intolerância, que foi um marco a favor de maior tolerância e cooperação no mundo. Tomara que esse espirito ilumine os governos agora, na Conferência do Clima. (Por José Pedro S.Martins)

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Subcomissão da Copa e Olimpiadas debate rede de proteção para promover inclusão social

A criação de uma rede de proteção para promover a inclusão social e prevenir/combater o tráfico de pessoas e a exploração sexual, entre outros pontos, em função da realização dos megaeventos esportivos previstos para o Brasil nos próximos anos. A proposta é da senadora Lidice da Mata (PSB-BA), presidente da Subcomissão Temporária da Copa 2014, Olimpiadas e Paraolimpiadas de 2016. Ela conversou comigo há alguns minutos, no Senado, e destacou as principais preocupações da Subcomissão que preside.

A senadora explicou que a iniciativa de se criar a Subcomissão está ligada à reativação do Fórum Legislativo de Megaeventos, estruturado em função dos Jogos Panamericanos no Rio de Janeiro. Com a proximidade da Copa o Fórum foi reativado, procurando articular Câmara e Senado Federal e assembleias legislativas estaduais, com o propósito de acompanhar os preparativos para a competição.

Como parte dos trabalhos do Fórum Legislativo, foram visitadas as 12 cidades-sede da Copa de 2014, além de Campinas, na última segunda-feira, por ocasião da reunião das cidades candidatas a ser subsede da Copa. Uma das preocupações, nota a senadora Lidice da Mata, tem sido com a transparência dos gastos públicos com a preparação das arenas das 12 cidades-sede da Copa de 2014, além dos projetos de mobilidade urbana e de acesso total de pessoas com deficiência ao local dos jogos.

Entretanto, a senadora entende que é preciso ir além, e por isso defende a criação de uma rede de proteção social em função da realização da Copa e dos demais grandes eventos esportivos. Uma rede para prevenir e combater a exploração sexual e o tráfico de pessoas, entre outros pontos.

"Estamos olhando a Copa e demais megaeventos de uma perspectiva global. São eventos que podem gerar muitas oportunidades, e queremos contribuir para que as oportunidades positivas sejam maximizadas, evitando que sejam criados passivos, legados negativos", observa a presidente da Subcomissão Temporária. A senadora Lídice da Mata nota que ficou muito preocupada, por exemplo, com o relato de legados negativos deixados em função da Copa de 2010 na África do Sul.

A senadora Lidice da Mata é uma economista que começou a carreira política como vereadora em Salvador, eleita em 1982. Foi prefeita de Salvador, deputada estadual e federal, antes de chegar ao Senado nas eleições de 2010. Durante seu mandato, a Prefeitura de Salvador recebeu da Unesco o Prêmio Cidades pela Paz, pelo trabalho com crianças em situação de vulnerabilidade social. (Por José Pedro Martins, jornalista e escritor, autor entre outros livros de "Jogo Verde, Jogo Limpo - 100 propostas para uma Agenda 21 Brasil do Esporte para a Sustentabilidade, o Turismo Sustentável, a Paz e a Diversidade Cultural", Komedi, 2011)

domingo, 20 de novembro de 2011

Senado amplia debate sobre sustentabilidade na Copa 2014, Olimpiadas e Paraolimpiadas de 2016

Na quarta-feira, dia 23, na Ala Senador Alexandre Costa do Senado Federal, a Subcomissão Temporária Copa 2014, Olimpiada e Paraolimpiada 2016, presidida pela senadora Lídice da Mata (PSB/BA), promove uma audiência pública sobre "As ações de sustentabilidade para a Copa de 2014, Olimpíada e Paraolimpíada de 2016”.

A Subcomissão Temporária Copa 2014, Olimpiada e Paraolimpiada 2016 - CDRCOOL foi criada no âmbito da Comissão de Desenvolvimento Regional e Turismo do Senado Federal, presidida pelo senador Benedito de Lira (PP/AL). A criação da Subcomissão indica a preocupação do Senado em participar ativamente dos preparativos da Copa de 2014 e das Olimpiadas e Paraolimpiadas de 2016, no sentido de que esses eventos deixem um importante legado em termos sociais e ambientais para o Brasil.

No dia 10 de novembro, a Subcomissão promoveu audiência pública para debater a rede de proteção social necessária e as políticas de acessibilidade programadas para os três grandes eventos esportivos que o Brasil sedia entre 2014 e 2016. No evento, a senadora Lidice da Mata observou que pesquisas de opinião indicam a segurança pública como a maior preocupação dos brasileiros na preparação para os megaeventos, superando inclusive as questões de mobilidade urbana e construção dos estádios.

Para a audiência pública da quarta-feira, dia 23, a partir das 14 horas, foram convidados, como expositores, Laura Silvia Valente de Macêdo, diretora do Departamento de Economia e Meio Ambiente do Ministério do Meio Ambiente; Paula Gabriela de Freitas, representante da Associação Ambiental de Governos Locais pela Sustentabilidade; Cláudio Langoni, representante do Ministério do Esporte, e o jornalista e escritor José Pedro Martins, autor entre outros livros de "Jogo Verde, Jogo Limpo - 100 Propostas para uma Agenda 21 Brasil do Esporte pela Sustentabilidade, o Turismo Sustentável, a Paz e a Diversidade Cultural" (Komedi, 2011).

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Dia Mundial da Filosofia, para pensar a sustentabilidade

Fórum Social Mundial 2005, em Porto Alegre, símbolo da

efervescência do pensamento que pode transformar



Por José Pedro Martins



Neste dia 17 de novembro, quinta-feira, as Nações Unidas promovem o Dia Mundial da Filosofia. A data foi oficializada por iniciativa da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), que a celebra desde 2002. Na sua mensagem para o Dia Mundial da Filosofia de 2011, a diretora-geral da Unesco, Irina Bokova, observa que a filosofia, o exercício do pensamento crítico e a liberdade de expressão são "elementos fundamentais na busca coletiva de respostas duradouras aos desafios da paz e o desenvolvimento".

De fato, o Dia Mundial da Filosofia de 2011 reveste-se de significado especial, considerando o movimento global por um novo modelo de desenvolvimento, que necessariamente implica na recusa ao pensamento único da sociedade consumista e destruidora dos recursos naturais. O movimento dos indignados em escala mundial e a Primavera Árabe que sacudiu vários países são exemplos do desejo coletivo por um novo estilo de vida, assim como já fizeram o Fórum Social Mundial (com várias edições no Brasil e outros países) no início do século 21 e o movimento estudantil da década de 1960.

Nas vésperas da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, o Dia Mundial da Filosofia dá enorme contribuição, no sentido de que é fundamental repensar o sentido da presença humana na Terra, a sua relação com a biodiversidade e os recursos naturais. Uma Ecofilosofia, aliás, vem emergindo de vários círculos de debates. A Ecologia Profunda, inspirada em pensadores como o filósofo norueguês Arne Naess, e o Ecofeminismo, que tem expoentes como Vandana Shiva, são algumas linhas de pensamento a contribuir para uma filosofia afinada com os desafios contemporâneos.

Muitas ideias caras à Ecologia Profunda, apontadas por Naess na década de 1970, têm a sua validade cada vez mais atual. Entre outros pontos, a Ecologia Profunda defende a harmonia entre o humano e a natureza, contra a visão antropocêntrica que ainda impera em vários segmentos, e a valorização do desenvolvimento descentralizado, da reciclagem, de ciência e tecnologia afinadas com a defesa da vida e de projetos humanos maiores do que o simples produzir e consumir de forma ilimitada. Ao recusar a visão machista de mundo, o ecofeminismo também propõe o questionamento da hierarquização que colocou o humano como senhor absoluto da biodiversidade e defende valores como o respeito à diversidade, a erradicação de todas modalidades de preconceito e racismo.

Filosofia renovada e sustentabilidade têm tudo, então, para caminhar juntas no século 21. Na sua mensagem para a data, a diretora-geral da Unesco observa que "ultimamente temos sofrido várias catástrofes de grande magnitude que conferem estremecedora urgência à reflexão sobre o lugar do homem na natureza". Para Irina Bokova, esse enorme desafio de ordem ecológica e fatos como a Primavera Árabe geram a exigência de que "redobremos esforços para dar a todos, jovens e não-jovens, os meios de refletir sobre sociedades que se encontram em plena mutação". O pensamento que dança e que se recusa a permanecer calado. (José Pedro Martins é jornalista e escritor, autor de livros como "Agenda 21 Local para uma Ecocivilização")