Informações e projetos relacionados ao esporte como espaço e plataforma de contribuição ao desenvolvimento sustentável nos aspectos ambiental, econômico e social, mas também para a solidariedade, a cultura de paz e a diversidade cultural
sábado, 18 de agosto de 2012
Pedido de Trégua Olímpica continua valendo até final das Paralimpíadas
Até o final das Paralimpíadas de Londres, em 9 de setembro, continua valendo o pedido de Trégua Olímpica, feito pela Assembleia Geral das Nações Unidas. A iniciativa relembra a trégua nos conflitos, observada na Grécia durante os Jogos Olímpicos da antiguidade. Na reunião de 17 de outubro de 2011, a Assembleia Geral da ONU aprovou a resolução "Construir uma sociedade pacífica e um mundo melhor através do esporte e do ideal olímpico", na qual faz um apelo a que todos os seus 193 estados membros observem o cessar de hostilidades durante o período olímpico de 2012, entre 27 de julho e 9 de setembro, datas, respectivamente, do início dos Jogos de Verão e final das Paralimpíadas, em Londres.
Diversas fontes apontam para o ano de 776 a.C como o início das Olimpíadas na antiga Grécia. Eram jogos realizados em Olimpia, onde estava situado um santuário em homenagem a Zeus, no Noroeste do Peloponeso, a 320 quilômetros de Atenas e a 80 de Esparta. Nesse território, às margens do rio Alfeo, eram promovidas competições e celebrações aos deuses durante cinco dias. Corrida no estádio, corrida com armas, salto em distância, lançamento de disco, box, luta, corrida de bigas, montaria e pentatlo, entre outras, eram as modalidades desses pioneiros Jogos Olímpicos.
Durante os jogos era observada a Ekekheria ou Trégua Olímpica. Três Espondoforos, ou Mensageiros da Paz, partiam de Olímpia para avisar a todo povo que o período de trégua havia começado. O uso de armas era então proibido naquele momento. Com a interrupção das atividades militares, os soldados retornavam a seus quarteis. Poucas vezes essa trégua foi rompida, nos mais de mil anos de duração dos Jogos Olímpicos da antiguidade.
A vinculação entre esporte e paz estava presente na inauguração das Olimpíadas modernas pelo Barão de Coubertin, no final do século 19. Depois de um tempo de esquecimento, durante o longo período da Guerra Fria, o ideal da Trégua Olímpica foi retomado com vigor nas Olimpíadas de Barcelona, em 1992. A Europa estava atormentada com o início de intensos conflitos armados na antiga Iugoslávia e o então presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), o espanhol Juan Samaranch, liderou o pedido de retomada da Trégua Olímpica, aprovada pela Assembleia da ONU em 25 de outubro de 1993. Desde então, em toda véspera de Jogos Olímpicos as Nações Unidas retomam o apelo à Trégua Olímpica.
Em 2000, foi criada a Fundação Internacional para a Trégua Olímpica, fruto de parceria entre o COI e o governo da Grécia. O atual presidente do COI, Jacques Rogge, é o presidente do Conselho Internacional da Fundação. Atenas é a sede da organização, que em 26 de julho de 2012, nas vésperas da abertura dos Jogos Olímpicos de Londres, reiterou em mensagem o sentido da Trégua Olímpica, dirigindo-se especialmente à situação na Síria.
Na mensagem, a Fundação Internacional para a Trégua Olímpica fez um apelo para "todos os lados na Síria para honrar a trégua olímpica". Para a Fundação, a suspensão das hostilidades, se ocorresse apenas durante a duração dos Jogos Olímpicos, poderia criar um "espaço para negociações para resolver a crise pacificamente". Um cessar-fogo, continuou a mensagem, representaria "dar esperança e perspectivas para as pessoas sitiadas da Síria por um futuro brilhante e pacífico".
Como aconteceu durante os sucessivos conflitos nas repúblicas que integravam a antiga Iugoslávia, e que duraram até 2001, a Trégua Olímpica não tem sido de novo observada na prática. Durante a atual Trégua Olímpica, continuam ocorrendo a guerra civil na Síria e conflitos em países como Somália, Sudão, Sudão do Sul e Mali. De qualquer modo, o sonho pela paz impulsionada pelo esporte continua, com o sentido da Trégua Olímpica resgatado.
domingo, 12 de agosto de 2012
As lições de Londres-2012 para a sustentabilidade em Jogos Olímpicos
Um dos principais legados de Londres-2012 é o avanço na aplicação dos conceitos de sustentabilidade, em relação às últimas Olimpíadas. Ficaram importantes lições, que já poderão ser aplicadas nos Jogos Olímpicos e Paraolimpíadas do Rio de Janeiro em 2016 mas que também valem para os dois outros megaeventos no Brasil, a Copa das Confederações, em 2013, e a Copa do Mundo de Futebol, em 2014.
A vinculação entre esporte e meio ambiente começou com força dois anos depois da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio-92, no Rio de Janeiro. Em 1994, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) assinou acordo de cooperação com o Comitê Olímpico Internacional (COI), que neste mesmo ano incluiu o meio ambiente como o terceiro pilar do movimento olímpico, ao lado do esporte e da cultura.
Em outubro de 1999, na Terceira Conferência Mundial sobre Esporte e Meio Ambiente, realizada no Rio de Janeiro, foi lançada a Agenda 21 do Movimento Olímpico Esporte para o Desenvolvimento Sustentável. Medidas concretas relacionadas à sustentabilidade passaram a ser tomadas a partir dos Jogos Olímpicos de Sidney, na Austrália, em 2000. (Ver mais sobre História da relação Esporte e Sustentabilidade na coluna História: http://esporteesustentabilidadenobrasil.blogspot.com.br/p/historia.html)
O projeto de Londres 2012 - Desde a concepção da candidatura, Londres considerou a possível realização dos Jogos Olímpicos como uma excelente oportunidade para estimular a economia local, gerando renda e emprego, a partir da transformação da área mais degradada da cidade, na região Leste, a East London. E a reconstrução deveria seguir princípios da sustentabilidade, segundo os responsáveis pela candidatura.
Uma das medidas tomadas para garantir esse legado de sustentabilidade foi a criação da Comissão para uma Londres-2012 Sustentável, que atuaria no monitoramento das medidas tomadas, com a postura de ser um "amigo crítico". Comentários temáticos e relatórios sobre vários aspectos foram produzidos pela Comissão, cujo mandato expira no início de 2013, após um amplo balanço do que aconteceu de fato em termos de sustentabilidade relacionado aos Jogos Olímpicos e Paraolimpíadas.
Quando Londres se candidatou a sediar os Jogos de 2012, a cidade já havia se comprometido a criar um órgão para o controle independente da sustentabilidade. A Comissão foi então criada em 2007. Um conjunto de 233 recomendações foi feito pela Comissão, que passou a acompanhá-las e a divulgar trimestralmente o status de sua aplicação pelo comitê organizador dos Jogos Olímpicos.
No último balanço trimestral, divulgado um mês antes do início dos Jogos de Londres, a Comissão considerou que tinham sido consideradas satisfeitas 155 recomendações até aquele momento. Foram recomendações relacionadas ao planejamento e execução de medidas concretas para garantir o legado de sustentabilidade dos Jogos Olímpicos, em torno dos cinco eixos principais do Plano de Sustentabilidade Londres-2012: Mudanças Climáticas, Resíduos, Biodiversidade, Inclusão e Vida Saudável. A Comissão considerou nesse levantamento que em relação a outras 46 recomendações haviam sido observados progressos.
Entre as recomendações satisfeitas, estava aquela que, para a Comissão, seria chave para que o Plano de Sustentabilidade fosse executado da melhor forma possível. Era a recomendação de as várias organizações governamentais e não-governamentais com incidência no East London (como a Agência Ambiental, Natural England e Hidrovias Britânicas) buscassem atuar de forma conjunta, visando garantir ações coordenadas, mas sempre com uma postura crítica. Como fruto dessa atuação conjunta, deveria ser formulado um plano de futuro para o Lea Valley, de modo que a infraestrutura implantada dê resultados positivos em termos ambientais, sociais e econômicos para a cidade como um todo e para essa região em particular.
No último balanço trimestral, a Comissão também considerou que algumas recomendações feitas estavam sob risco de não serem cumpridas, tais como: viabilidade da compostagem de algumas embalagens desenvolvidas para serem utilizadas durante a competição, implementação adequada da estratégia de gestão de energia e plano de conservação visando a redução das emissões de carbono durante os jogos e compartilhamento, para além da "família do Comitê Olímpico Internacional", da aprendizagem derivada do legado de sustentabilidade de Londres-2012, de modo a que a indústria de eventos otimize, em outras competições no Reino Unido e em todo mundo, os recursos aplicados nos Jogos Olímpicos deste ano.
Saltos no plano de sustentabilidade - De qualquer modo, a Comissão para uma Londres-2012 Sustentável considerou que foram verificados avanços em relação a outras Olimpíadas. Algumas áreas em destaque:
Fonte: “Assegurando um legado - promessas, progresso e potencial”, da Comissão para uma Londres-2012 Sustentável, março de 2012, que citou, por sua vez, Gold JR & MR 2011 Olympic Cities Second Edition; Locate in Kent 2009 Economic Impacts of Olympic Games; Manidis Roberts 2010 The Legacy of the Green Games; East Thames nd 2012- Home Games; Greenpeace n.d The Beijing 2008 Environmental Performance Evaluation; UNEP 2008 UNEP Evaluation of Beijing 2008 Games. )
O propósito de renovação completa do Lea Valley, no East London, foi enfim alcançado, com a observação de muitos princípios da sustentabilidade e em função da governança estabelecida. Um dos principais pontos é que os Jogos Olímpicos e as Paraolimpíadas de 2012 em Londres são os primeiros da história olímpica a mapear a pegada de carbono, visando a redução de pelo menos 50% das emissões. A meta de geração de 20% da energia consumida no projeto olímpico por fontes renováveis não foi cumprida, porque não houve, ao contrário do esperado, aumento substancial da oferta de energias renováveis em Londres no período, mas foram aplicadas medidas para uso mais eficiente da energia.
O fato de que mais de 80% do solo foram limpos e reutilizados no próprio território do parque olímpico indica a dimensão das operações, que incluiram o transporte de 2 mil toneladas de resíduos por barcaças. As fundações para o Centro Aquático, Arena de Handball e Estádio Olímpico usaram concreto com mais de 30% de material reciclado. Um viveiro do Reino Unido foi contratado para fornecer 60.000 plantas para o jardim do Parque Olímpico, localizado ao lado do Centro Aquático. No final de dezembro de 2010, havia 6500 pessoas trabalhando no Parque Olímpico e mais de 5300 na Vila Olímpica. Mais de 200 mulheres foram contratadas, o projeto envolveu mais de 400 aprendizes e 75% das pessoas anteriormente desempregadas e que foram contratadas eram provenientes de cinco distritos de East London.
O conceito geral de sustentabilidade observado foi construído com a parceria das organizações BioRegional e WWF. O relatório de sustentabilidade de Londres-2012 foi elaborado de acordo com os indicadores do GRI - Global Reporting Initiative. Este relatório, mais as conclusões da Comissão para uma Londres-2012 Sustentável, representam importantes subsídios para os próximos megaeventos esportivos - quatro deles a serem realizados no Brasil nos próximos quatro anos. (Por José Pedro S.Martins)
A vinculação entre esporte e meio ambiente começou com força dois anos depois da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio-92, no Rio de Janeiro. Em 1994, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) assinou acordo de cooperação com o Comitê Olímpico Internacional (COI), que neste mesmo ano incluiu o meio ambiente como o terceiro pilar do movimento olímpico, ao lado do esporte e da cultura.
Em outubro de 1999, na Terceira Conferência Mundial sobre Esporte e Meio Ambiente, realizada no Rio de Janeiro, foi lançada a Agenda 21 do Movimento Olímpico Esporte para o Desenvolvimento Sustentável. Medidas concretas relacionadas à sustentabilidade passaram a ser tomadas a partir dos Jogos Olímpicos de Sidney, na Austrália, em 2000. (Ver mais sobre História da relação Esporte e Sustentabilidade na coluna História: http://esporteesustentabilidadenobrasil.blogspot.com.br/p/historia.html)
O projeto de Londres 2012 - Desde a concepção da candidatura, Londres considerou a possível realização dos Jogos Olímpicos como uma excelente oportunidade para estimular a economia local, gerando renda e emprego, a partir da transformação da área mais degradada da cidade, na região Leste, a East London. E a reconstrução deveria seguir princípios da sustentabilidade, segundo os responsáveis pela candidatura.
Uma das medidas tomadas para garantir esse legado de sustentabilidade foi a criação da Comissão para uma Londres-2012 Sustentável, que atuaria no monitoramento das medidas tomadas, com a postura de ser um "amigo crítico". Comentários temáticos e relatórios sobre vários aspectos foram produzidos pela Comissão, cujo mandato expira no início de 2013, após um amplo balanço do que aconteceu de fato em termos de sustentabilidade relacionado aos Jogos Olímpicos e Paraolimpíadas.
Quando Londres se candidatou a sediar os Jogos de 2012, a cidade já havia se comprometido a criar um órgão para o controle independente da sustentabilidade. A Comissão foi então criada em 2007. Um conjunto de 233 recomendações foi feito pela Comissão, que passou a acompanhá-las e a divulgar trimestralmente o status de sua aplicação pelo comitê organizador dos Jogos Olímpicos.
No último balanço trimestral, divulgado um mês antes do início dos Jogos de Londres, a Comissão considerou que tinham sido consideradas satisfeitas 155 recomendações até aquele momento. Foram recomendações relacionadas ao planejamento e execução de medidas concretas para garantir o legado de sustentabilidade dos Jogos Olímpicos, em torno dos cinco eixos principais do Plano de Sustentabilidade Londres-2012: Mudanças Climáticas, Resíduos, Biodiversidade, Inclusão e Vida Saudável. A Comissão considerou nesse levantamento que em relação a outras 46 recomendações haviam sido observados progressos.
Entre as recomendações satisfeitas, estava aquela que, para a Comissão, seria chave para que o Plano de Sustentabilidade fosse executado da melhor forma possível. Era a recomendação de as várias organizações governamentais e não-governamentais com incidência no East London (como a Agência Ambiental, Natural England e Hidrovias Britânicas) buscassem atuar de forma conjunta, visando garantir ações coordenadas, mas sempre com uma postura crítica. Como fruto dessa atuação conjunta, deveria ser formulado um plano de futuro para o Lea Valley, de modo que a infraestrutura implantada dê resultados positivos em termos ambientais, sociais e econômicos para a cidade como um todo e para essa região em particular.
No último balanço trimestral, a Comissão também considerou que algumas recomendações feitas estavam sob risco de não serem cumpridas, tais como: viabilidade da compostagem de algumas embalagens desenvolvidas para serem utilizadas durante a competição, implementação adequada da estratégia de gestão de energia e plano de conservação visando a redução das emissões de carbono durante os jogos e compartilhamento, para além da "família do Comitê Olímpico Internacional", da aprendizagem derivada do legado de sustentabilidade de Londres-2012, de modo a que a indústria de eventos otimize, em outras competições no Reino Unido e em todo mundo, os recursos aplicados nos Jogos Olímpicos deste ano.
Saltos no plano de sustentabilidade - De qualquer modo, a Comissão para uma Londres-2012 Sustentável considerou que foram verificados avanços em relação a outras Olimpíadas. Algumas áreas em destaque:
|
Área |
Londres 2012 |
Pequim 2008 |
Atenas 2004 |
Sidney 2000 |
|
Mobilidade |
Garantia de
100% de acesso aos jogos por transporte público, com melhorias significativas
no transporte ferroviário e por ônibus |
Cinco novas
linhas de metrô, implantação do 4º e 5º anéis viários. |
Melhorias
gerais no transporte público, incluindo eco-ônibus, nova linha de metrô,
linha de trem e novo aeroporto internacional |
Novas
linhas para o parque. |
|
Design
inclusivo |
Todos
espaços projetados com os princípios do design inclusivo |
Espaços
concebidos com padrões contemporâneos |
Sem
informação |
Requisitos
para a inclusão observados em todos espaços |
|
Criação de
uma nova vizinhança ou revitalização da existente |
Regeneração
do Baixo Lea Valley no East London, que está no coração do projeto olímpico.
Planos foram formulados para o futuro da área |
Venda por
atacado, visando novos usos, de grandes parcelas de terras no centro da
cidade, com realocação de milhares de famílias no subúrbio |
Localização
dos Jogos Olímpicos dependeu das terras existentes, não havendo estratégias
de revitalização |
Uma nova
cidade foi planejada para 10 anos depois dos Jogos. A Vila Olímpica tornou-se
um novo subúrbio |
|
Infraestrutu-ra
em energia renovável |
Metas de
energias renováveis não cumpridas
devido a falha técnica da proposta tecnológica para o território dos eventos.
No entanto, medidas compensatórias foram tomadas no lugar e superadas |
Compromisso
de instalar rede geotérmica de
aquecimento para cobrir 16 milhões de metros quadrados. Vários locais
equipados com energia geotérmica, fontes de água e ar provenientes de bombas
de calor e sistemas de energia solar fotovoltaica |
Sem energia
solar fotovoltaica incorporada aos locais de encontro. Abordagem convencional
de design em todos os locais. Sem medidas de economia de água |
Vila
Olímpica e alguns locais incluindo energia solar fotovoltaica. Medidas de
economia de água, incluindo uma estação de tratamento (WRAMS) que também
fornece energia renovável |
|
Redução de
carbono |
Meta de
redução de 50% do carbono das operações na infraestrutura criada foi
excedida, embora com medidas de compensação fora deste território |
Impostos
mais altos aplicados aos veículos maiores. 90% dos ônibus e 70% dos táxis
usaram gás natural |
Sem
informação |
Sem
informação |
|
Qualidade
do ar |
Meta de
redução média de 30% dos congestiona-mentos através do aumento das caminhadas,
ciclismo e do uso de transportes públicos |
Fechamento
de usina siderúrgica pesada na cidade, redução do número de veículos mais
antigos nas estradas, restrições ao uso de veículos observadas nos Jogos
estendidas em 12 meses após o evento |
Campanha
para aumento da consciência pública visando diminuir o número de carros |
Sem metas
específicas, mas o grande uso de transporte publicou reduziu o impacto do uso
de veículos particulares |
|
Metas em
resíduos |
Principal compromisso de que os Jogos sejam um
catalisador para a infra-estrutura de resíduos em East London não será alcançada. Contudo, metas substanciais
relativas aos resíduos foram observadas durante a fase de construção e durante
os Jogos |
Meta de que,
em 2005, 96% de todos os resíduos e
águas residuais seriam eliminados de
forma segura e tratados. |
Sem
atividades de reuso de material e reciclagem |
90% dos
materiais usados ou reciclados no próprio site. Política de embalagem para
resíduos de alimentos |
|
Materiais
de construção |
Varias
metas definidas quanto ao uso de materiais ambientalmente sensíveis e de reutilização de materiais em construção. As
metas foram cumpridas |
Não houve,
mas foi feito um esforço relacionado ao uso de materiais em todas as fases de
construção. Houve por exemplo um programa para eliminação progressiva dos
gases que afetam a camada de ozônio e uso de materiais compostos de madeira
para fabricação de mobiliário |
Sem informação |
Política de
materiais ambientalmen-te sensíveis como PVC e madeira |
|
Infraestrutu-ra
de resíduos |
Estação de
tratamento de água residual que limpa e recicla água não potável foi
construída no local |
Meta
declarada de construção de 14 novas estações de tratamento de águas residuais
|
Remediação
de antigo aterro sanitário |
Antigo
aterro nivelado e equipado com captura de gás metano, mas infra-estrutura não foi ativamente
implantada |
|
Plano de
biodiversi-dade |
Claro plano
de ação em biodiversidade visando substituir a diversidade de espécies que
foi perdida durante a construção e melhoria da biodiversidade no território |
Criação de áreas
verdes incluindo 680 hectares de parque e aumento do plantio de árvores
incluindo 240 km de árvores e gramados |
Houve propostas
não executadas |
Criação de
novo parque |
|
Metas de
empregos locais |
Metas
específicas para emprego local foram superadas |
Sem metas
específicas |
Sem consultas
ou participação da comunidade |
Forte
estratégia de voluntariado |
|
Criação de
novas oportunida-des de negócios na área do legado |
Planos de
criar novas oportunidades de negócios por vários meios |
Plano para tornar
Pequim não apenas uma cidade produtora mas consumidora, com benefícios
econômicos |
Modestos
impactos econômicos de longo prazo, embora infraestrutura tenha seus efeitos |
Demora no
estabelecimen-to de novo centro da cidade, mas economia cresceu por meio dos
investimentos feitos |
|
Resultados
para a saúde em geral |
Reiteração
de metas de aumento da atividade física e participação em esportes durante
sucessivos governos. Progressos nesta área não são animadores |
Críticas a
respeito de que muitos locais de esportes são caros para a população de
Pequim |
Sem metas
propostas |
Intenção
declarada de melhorar participação nos
esportes a partir do efeito Olímpico, mas não houve monitoramento deste
impacto |
Fonte: “Assegurando um legado - promessas, progresso e potencial”, da Comissão para uma Londres-2012 Sustentável, março de 2012, que citou, por sua vez, Gold JR & MR 2011 Olympic Cities Second Edition; Locate in Kent 2009 Economic Impacts of Olympic Games; Manidis Roberts 2010 The Legacy of the Green Games; East Thames nd 2012- Home Games; Greenpeace n.d The Beijing 2008 Environmental Performance Evaluation; UNEP 2008 UNEP Evaluation of Beijing 2008 Games. )
O propósito de renovação completa do Lea Valley, no East London, foi enfim alcançado, com a observação de muitos princípios da sustentabilidade e em função da governança estabelecida. Um dos principais pontos é que os Jogos Olímpicos e as Paraolimpíadas de 2012 em Londres são os primeiros da história olímpica a mapear a pegada de carbono, visando a redução de pelo menos 50% das emissões. A meta de geração de 20% da energia consumida no projeto olímpico por fontes renováveis não foi cumprida, porque não houve, ao contrário do esperado, aumento substancial da oferta de energias renováveis em Londres no período, mas foram aplicadas medidas para uso mais eficiente da energia.
O fato de que mais de 80% do solo foram limpos e reutilizados no próprio território do parque olímpico indica a dimensão das operações, que incluiram o transporte de 2 mil toneladas de resíduos por barcaças. As fundações para o Centro Aquático, Arena de Handball e Estádio Olímpico usaram concreto com mais de 30% de material reciclado. Um viveiro do Reino Unido foi contratado para fornecer 60.000 plantas para o jardim do Parque Olímpico, localizado ao lado do Centro Aquático. No final de dezembro de 2010, havia 6500 pessoas trabalhando no Parque Olímpico e mais de 5300 na Vila Olímpica. Mais de 200 mulheres foram contratadas, o projeto envolveu mais de 400 aprendizes e 75% das pessoas anteriormente desempregadas e que foram contratadas eram provenientes de cinco distritos de East London.
O conceito geral de sustentabilidade observado foi construído com a parceria das organizações BioRegional e WWF. O relatório de sustentabilidade de Londres-2012 foi elaborado de acordo com os indicadores do GRI - Global Reporting Initiative. Este relatório, mais as conclusões da Comissão para uma Londres-2012 Sustentável, representam importantes subsídios para os próximos megaeventos esportivos - quatro deles a serem realizados no Brasil nos próximos quatro anos. (Por José Pedro S.Martins)
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
Criação de Grupo Gestor dá pontapé inicial para Copa Orgânica e Sustentável
Nesta sexta-feira, 10 de agosto, será criado durante seminário em São Paulo o Grupo Gestor da campanha Copa Orgânica e Sustentável. A intenção é criar uma associação nacional visando elaborar o planejamento e execução da campanha, que será lançada em escala nacional em novembro. O propósito da Copa Orgânica e Sustentável será estimular a produção e comercialização de produtos orgânicos em vários tipos de estabelecimentos por ocasião da Copa de 2014, aumentando a visibilidade e fortalecendo esse segmento agrícola em constante crescimento. Agricultores familiares, sociedade civil e empresas devem estar representados no Grupo Gestor.
Após a criação da associação, será solicitado o apoio do governo federal, por meio do Grupo de Trabalho Interministerial. O Ministério do Desenvolvimento Agrário é um dos principais estimuladores da campanha Copa Orgânica e Sustentável.
A agricultura orgânica está em constante crescimento em todo mundo e também no Brasil. Segundo a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), dois milhões de agricultores orgânicos já estão certificados no mundo, sendo 80% deles nos países em desenvolvimento, onde estão igualmente 73% das áreas certificadas para a apicultura orgânica e coleta de produtos vegetais cultivdos em estado selvagem. As estimativas são de que a agricultura orgânica já estaria movimentando um comércio de US$ 60 bilhões anuais.
Um dos principais portais para a expansão da agricultura orgânica no mundo é a BioFach, grande feira de produtos orgânicos, realizada em Nuremberg, na Alemanha. Na edição de 2012, em fevereiro, a feira contou com mais de 2,5 mil expositores. O Brasil estava presente com dez empresas do setor, ligadas ao Projeto Organics Brasil.
Esta representação indica o estágio da agricultura orgânica no Brasil, um setor também em crescimento, mas que continua a enfrentar desafios, como nas áreas de certificação e comercialização. Embora tenha uma das maiores produções agrícolas do mundo de forma geral (produção anual em torno de 150 milhões de toneladas de cereais, leguminosas e oleaginosas), o Brasil ainda tem um espaço muito grande para crescimento do mercado de orgânicos, diante do potencial existente.
Previsto na Lei 10.831, de 2003, regulamentada em 2007, com o decreto 6323, o Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos, em construção, dará a dimensão exata da produção da agricultura orgânica no Brasil. A lei estabeleceu o que realmente pode ser caracterizado como orgânico. A expectativa é a de que a campanha Copa Orgânica e Sustentável contribua para a ampliação da visibilidade da agricultura orgânica no Brasil, influenciando no aumento da produção e melhoria da distribuição e comercialização.
Após a criação da associação, será solicitado o apoio do governo federal, por meio do Grupo de Trabalho Interministerial. O Ministério do Desenvolvimento Agrário é um dos principais estimuladores da campanha Copa Orgânica e Sustentável.
A agricultura orgânica está em constante crescimento em todo mundo e também no Brasil. Segundo a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), dois milhões de agricultores orgânicos já estão certificados no mundo, sendo 80% deles nos países em desenvolvimento, onde estão igualmente 73% das áreas certificadas para a apicultura orgânica e coleta de produtos vegetais cultivdos em estado selvagem. As estimativas são de que a agricultura orgânica já estaria movimentando um comércio de US$ 60 bilhões anuais.
Um dos principais portais para a expansão da agricultura orgânica no mundo é a BioFach, grande feira de produtos orgânicos, realizada em Nuremberg, na Alemanha. Na edição de 2012, em fevereiro, a feira contou com mais de 2,5 mil expositores. O Brasil estava presente com dez empresas do setor, ligadas ao Projeto Organics Brasil.
Esta representação indica o estágio da agricultura orgânica no Brasil, um setor também em crescimento, mas que continua a enfrentar desafios, como nas áreas de certificação e comercialização. Embora tenha uma das maiores produções agrícolas do mundo de forma geral (produção anual em torno de 150 milhões de toneladas de cereais, leguminosas e oleaginosas), o Brasil ainda tem um espaço muito grande para crescimento do mercado de orgânicos, diante do potencial existente.
Previsto na Lei 10.831, de 2003, regulamentada em 2007, com o decreto 6323, o Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos, em construção, dará a dimensão exata da produção da agricultura orgânica no Brasil. A lei estabeleceu o que realmente pode ser caracterizado como orgânico. A expectativa é a de que a campanha Copa Orgânica e Sustentável contribua para a ampliação da visibilidade da agricultura orgânica no Brasil, influenciando no aumento da produção e melhoria da distribuição e comercialização.
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Olimpíadas de Londres renovam histórias de superação
Durante duas semanas, a utopia resgatada. As Olimpíadas de Londres estão renovando as histórias de superação associadas ao esporte. São trajetórias pessoais marcadas por enormes desafios, mas coroadas com medalhas olímpicas ou apenas com a satisfação de estar competindo entre os melhores, indicando vitórias no jogo mais importante, o jogo da vida.
É o caso de Joanna Rowsell, integrante da equipe britânica campeã olímpica de ciclismo, na prova que teve Paul McCartney como espectador ilustre. Aos 10 anos ela recebeu o diagnóstico de alopecia, doença que provoca a queda dos pelos do corpo. Cinco anos depois, o ciclismo começou a mudar a sua vida e a sua prioridade passou a ser a preparação para as competições. Venceu campeonatos juvenis e em 2008 integrou a equipe britânica campeã mundial, repetindo o feito em 2009 e 2012.
Uma das biografias mais impressionantes, ligadas aos Jogos Olímpicos de Londres, é a de Adrien Niyoshuti, 25 anos. Ele perdeu os pais, o avô e seis irmãos no genocídio ocorrido em Ruanda em 1994, quando 800 mil pessoas morreram, como resultado das disputas entre Hutus e Tutsis. Ele começou a carreira no ciclismo como consequencia do trabalho que fazia, transportando hortaliças e legumes em bicicletas. Niyoshuti carregou a bandeira de Ruanda na cerimônia de abertura em Londres. Seu país levou sete atletas à Inglaterra.
Outro africano que tem uma bela história para contar é o velocista Oscar Pistorius. O sul-africano é o primeiro atleta bi-amputado a competir na Olimpíada e na Paraolimpíada. Ele chegou à semifinal dos 400 m rasos em Londres. Embora não tenha se classificado para a final, já tem o nome inscrito na galeria da superação.
Impossível não citar, igualmente, o feito de atletas de países de baixa renda, mas que se tornaram referência mundial em várias modalidades. Caso dos etíopes e quenianos do atletismo, tão bem conhecidos dos brasileiros pela sua tradicional e vitoriosa participação na Corrida de São Silvestre e outras competições semelhantes. Para variar, a etíope Tiki Gelana ganhou a maratona feminina em Londres. A queniana Priscah Jeptoo ficou com a medalha de prata.
Claro, Usain Bolt, o jamaicano bicampeão olímpico nos 100 metros rasos, na prova que teve outro compatriota, Yohan Blake, como segundo colocado. A terra do reggae também assombra o mundo nas pistas de atletismo.
Terminadas as Olimpíadas, logo depois a capital britânica sediará o momento máximo da superação pelo esporte. A décima-quarta edição das Paraolimpíadas acontecerá entre 29 de agosto e 9 de setembro. Serão 21 modalidades, proporcionando novos relatos de transposição de barreiras, de celebração da beleza da vida (Por José Pedro S.Martins)
É o caso de Joanna Rowsell, integrante da equipe britânica campeã olímpica de ciclismo, na prova que teve Paul McCartney como espectador ilustre. Aos 10 anos ela recebeu o diagnóstico de alopecia, doença que provoca a queda dos pelos do corpo. Cinco anos depois, o ciclismo começou a mudar a sua vida e a sua prioridade passou a ser a preparação para as competições. Venceu campeonatos juvenis e em 2008 integrou a equipe britânica campeã mundial, repetindo o feito em 2009 e 2012.
Uma das biografias mais impressionantes, ligadas aos Jogos Olímpicos de Londres, é a de Adrien Niyoshuti, 25 anos. Ele perdeu os pais, o avô e seis irmãos no genocídio ocorrido em Ruanda em 1994, quando 800 mil pessoas morreram, como resultado das disputas entre Hutus e Tutsis. Ele começou a carreira no ciclismo como consequencia do trabalho que fazia, transportando hortaliças e legumes em bicicletas. Niyoshuti carregou a bandeira de Ruanda na cerimônia de abertura em Londres. Seu país levou sete atletas à Inglaterra.
Outro africano que tem uma bela história para contar é o velocista Oscar Pistorius. O sul-africano é o primeiro atleta bi-amputado a competir na Olimpíada e na Paraolimpíada. Ele chegou à
Impossível não citar, igualmente, o feito de atletas de países de baixa renda, mas que se tornaram referência mundial em várias modalidades. Caso dos etíopes e quenianos do atletismo, tão bem conhecidos dos brasileiros pela sua tradicional e vitoriosa participação na Corrida de São Silvestre e outras competições semelhantes. Para variar, a etíope Tiki Gelana ganhou a maratona feminina em Londres. A queniana Priscah Jeptoo ficou com a medalha de prata.
Claro, Usain Bolt, o jamaicano bicampeão olímpico nos 100 metros rasos, na prova que teve outro compatriota, Yohan Blake, como segundo colocado. A terra do reggae também assombra o mundo nas pistas de atletismo.
Terminadas as Olimpíadas, logo depois a capital britânica sediará o momento máximo da superação pelo esporte. A décima-quarta edição das Paraolimpíadas acontecerá entre 29 de agosto e 9 de setembro. Serão 21 modalidades, proporcionando novos relatos de transposição de barreiras, de celebração da beleza da vida (Por José Pedro S.Martins)
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
Não faltou jogo para o futebol feminino: falta projeto de país
Por José Pedro Martins
O Brasil provavelmente levará o ouro no futebol masculino (embora ainda tenha que jogar muito para isso), mas de novo a nota triste é o descaso absoluto com o futebol feminino. Essas meninas são as nossas verdadeiras heroinas olímpicas. Sem nenhuma retaguarda, sem nenhum apoio, sem liga nacional, continuam correndo muito pelo país. É claro que uma hora ou outra não conseguiriam ficar entre as quatro melhores. Miopia, machismo descarado. Para o milionário futebol masculino, tudo, para o feminino, o sorriso amarelo de sempre. (E o mesmo pode ser dito em relação à maioria das outras modalidades) Com esse espírito olímpico (e o esporte em geral reflete os valores que um país cultiva), continuaremos lá na ponta oposta da tabela, e nem os jogos no Rio em 2016 irão salvar a casa.
Quando, em 1996, as meninas ficaram em quarto lugar nas Olimpíadas de Atlanta, deixando evidente o enorme potencial de avanços maiores, já deveria ter sido iniciado o tão falado e nunca praticado trabalho de base com o futebol feminino no Brasil. Qualquer país com ambição - e aqui a palavra é empregada no sentido mais positivo possível - olímpica, ou melhor, que efetivamente encara o esporte como plataforma para o desenvolvimento humano integral, faria isso.
Quatro anos depois, em Sydney, outro quarto lugar. Em 2004 e 2008, em Atenas e Pequim, a medalha de prata. Já era tempo de estruturação de um trabalho efetivo, a partir das escolas, como ocorre nos países que levam o esporte - e a educação - a sério, e isso nas mais diversas situações, dos Estados Unidos à Coreia do Sul, da China a Cuba.
Mas a esperança continuou apenas em função do talento individual, do brilho, de Marta ou Cristiane (o Brasil sempre dependendo de um líder...). Marta pouco jogou nos últimos dois anos. A liga americana, onde jogava, depois de anos na Europa, chegou a ser suspensa - o que não diminuiu o poderio do futebol feminino nos Estados Unidos, justamente porque lá existe o tal trabalho de base, a partir das escolas no primeiro ciclo.
Marta agora está falando em talvez não jogar as Olimpíadas de 2016. Ela provavelmente está amargurada e decepcionada com seu país. Deve ser muito difícil carregar a esperança de uma nação, mas não receber o retorno desejado desta mesma nação. Ela sabe muito bem a causa do fracasso em Londres.
Em "Lisístrata", Aristófanes descreve uma suposta greve do sexo - um ato biopolítico naquele contexto - entre as mulheres gregas, como forma de forçar a paz entre atenienses e espartanos, os precursores dos mágicos Jogos Olímpicos. Nos últimos tempos, greves e protestos tornaram-se comuns entre atletas de diferentes modalidades. Guardadas as devidas proporções históricas, e utilizando outros meios políticos, é claro, as meninas do futebol feminino talvez devessem pensar em um movimento firme para garantir o trabalho de base necessário para que o brilho retorne em 2016 no Rio de Janeiro - se é que ainda dá tempo. Não foram Marta, Cristiane e outras atletas que falharam. O que faltou, o que falta, é um projeto de Brasil.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
FORTES INTERESSES AMEAÇAM A AGENDA 21 NA RIO+20
e mais do que nunca o espírito do documento está ameaçado
Por José Pedro Martins
Um enorme retrocesso no sonho mundial pela sustentabilidade poderá ocorrer na Rio+20, em junho, se sacramentada a morte, desejada por alguns poderosos, da Agenda 21. Iniciativas muito sérias direcionadas para enterrar a Agenda 21 já foram tomadas, e antecedentes históricos apenas alimentam o risco desse desastre para o processo civilizatório.
A Agenda 21 foi o principal documento aprovado na Eco-92, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada em junho de 1992, no mesmo Rio de Janeiro que agora receberá nova importante conferência da ONU. Marcada por um profundo compromisso ético com a vida, em seus 40 capítulos a Agenda 21 detalha os princípios, conceitos e metas para a conquista do desenvolvimento sustentável nas áreas social, econômica e ambiental.
Nem de longe é o horizonte dos sonhos, muitas questões ali apontadas poderiam ser repensadas à luz do atual cenário global e até de inovações tecnológicas ocorridas nas últimas décadas. Mas o principal é o espírito, o olhar, a perspectiva da Agenda 21, no sentido de considerar a complexidade da temática socioambiental. Uma visão multidisciplinar, transversal, complexa dos problemas e da forma de resolvê-los. E é acima de tudo um fomento da esperança, a indicação de que é possível mudar o quadro global à primeira vista devastador e sem solução.
A Agenda 21 motivou processos nacionais, regionais e locais em várias partes do planeta, com resultados expressivos de mobilização e avanços concretos em muitos casos. Entretanto, o sentido da Agenda 21, a sua mensagem, sempre foram boicotados na prática pelos grupos e governos não muito compromissados com as mudanças necessárias e urgentes para a proteção da vida na Terra. “Falar em Agenda 21” dava alergia em muitos poderosos (e mesmo meros candidatos a poderosos), temerosos de assumir compromissos que não poderiam lhe render apoio de outros poderosos.
E agora as garras estão afiadas. Nos Estados Unidos, cresce o movimento anti-Agenda 21, apontada como uma barreira para o crescimento econômico e até como uma forma de censurar as liberdades individuais. Nada mais falso e demagógico. Mas essa articulação ganhou uma dimensão perigosa com a resolução aprovada em janeiro pelo Partido Republicano, condenando o que qualifica de “destrutiva e insidiosa natureza” da Agenda 21. Newt Gingrich, um dos candidatos nas primárias republicanas, já se expressou a respeito, fazendo coro a seus partidários.
Curiosamente essa deliberação do poderoso Partido Republicano não teve grande repercussão na imprensa (o “New York Times” publicou artigo sobre a questão) ou mesmo no segmento ambientalista mundial. Entendo que essa movimentação por lá deveria ser levada mais a sério, inclusive em função da proposta oficial dos Estados Unidos para a Rio+20, que inclui a elaboração de um décalogo dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), semelhantes aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODMs), cujo prazo expira em 2015. Seria um conjunto de metas simplificadas, a exemplo dos Oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, a serem alcançadas em 10 ou 20 anos. Seria, na prática, uma enorme diluição do que a Agenda 21 global representa para um avanço da consciência de cidadania planetária.
O Brasil também manifestou apoio à elaboração dos ODS, em sua proposta oficial à Rio+20. Outros países, contudo, como a Colômbia, fizeram questão de ressaltar a importância de que na Rio+20 a comunidade internacional renove os compromissos com a Agenda 21. A Colômbia também apoia os ODS, mas deixa claro que eles deveriam se inspirar na Agenda 21.
Infelizmente existe uma tradição na história das grandes conferências internacionais de se esquecer o que foi aprovado anteriormente. A primeira Conferência de Meio Ambiente da ONU, a de Estocolmo, em 1972, aprovou uma declaração final com propósitos avançadíssimos, como o fim das armas de destruição em massa e do colonialismo, ao lado da defesa dos direitos humanos, da educação ambiental e da ciência a favor da vida. Claro, muitos desses enunciados não saíram do papel ou foram solenemente desprezados. Tomara que a Rio+20 não passe para a história como o evento que sepultou a Agenda 21.
Documento oficial - O “esboço zero” do documento final da Rio+20 é muito genérico quando aborda a Agenda 21. Isso apenas aumenta as preocupações com relação ao futuro desse documento da Eco-92 que representou muita esperança para toda uma geração. São estas, e apenas estas, as referências à Agenda 21 no esboço, intitulado "O futuro que queremos".
Ponto 7. “Nós reafirmamos nosso compromisso com o prosseguimento da implementação da Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, Agenda 21, o Programa de Implementação Contínua da Agenda 21, a Declaração de Joanesburgo sobre o Desenvolvimento Sustentável e o Plano de Implementação da Cúpula Global sobre o Desenvolvimento Sustentável, o Programa de Ação de Barbados e a Estratégia Maurícia para Implementação. Os princípios da Eco-92 continuarão a guiar a comunidade internacional e servir como base para a cooperação, coerência e implementação dos compromissos assumidos”.
Ponto 12. “Nós notamos que o compromisso nacional com o desenvolvimento se aprofundou. Muitos Governos atualmente incorporam questões ambientais e sociais em suas políticas econômicas, e fortaleceram seu compromisso com o desenvolvimento sustentável e a implementação de Agenda 21 e de acordos relacionados através de políticas e planos nacionais, legislação e instituições nacionais, e a ratificação e implementação de internacional ambiental acordos”.
Ponto 44. “Nós reconhecemos que uma forte governança em níveis locais, nacionais, regionais e global é crucial para dar prosseguimento ao desenvolvimento sustentável. O fortalecimento e reforma da estrutura institucional deve, entre outras coisas:
a) Integrar os três pilares de desenvolvimento sustentável e promover um implementação de Agenda 21 e resultados relacionados, de modo consistente com os princípios de universalidade, democracia, transparência, custos acessíveis e responsabilidade, mantendo em mente os princípios da Eco-92, em particular as responsabilidades comuns, mas diferenciadas.
b) Oferecer uma orientação política coesiva e centrada nos governos para o desenvolvimento sustentável e identificar ações específicas de modo a cumprir a agenda de desenvolvimento sustentável através da promoção de uma tomada de decisões integrada em todos os níveis.
c) Monitorar o progresso na implementação da Agenda 21 e resultados e acordos relevantes, em níveis locais, nacionais, regionais e global”.
Ponto 49 (2ª alternativa). “O trabalho do Conselho (de Desenvolvimento Sustentável) deve se basear em documentos fundamentais sobre o desenvolvimento sustentável como a Agenda 21, os princípios da Eco-92 e resultados relacionados. O Conselho deve, entre outras coisas, realizar plenamente as funções e obrigações da Comissão para o Desenvolvimento Sustentável. Deve ser guiado pela necessidade de promover a integração dos três pilares de desenvolvimento sustentável, promover sua implementação efetiva em todos os níveis e promover coerência institucional efetiva. Deve ajudar a ampliar o envolvimento de todos os stakeholders, em particular Major Groups, no acompanhamento dos resultados da Rio+20”.
Ponto 105. “Nós reconhecemos que metas, objetivos e marcos são essenciais para a medição e aceleração do progresso na direção do desenvolvimento sustentável e concordamos em lançar um processo inclusivo para elaborar até 2015:
a) um conjunto de Metas Globais de Desenvolvimento Sustentável que reflitam um tratamento integrado e balanceado das três dimensões do desenvolvimento sustentável, sejam consistentes com os princípios da Agenda 21, e sejam universais e aplicáveis a todos os países, mas dando espaço para abordagens diferenciadas entre países;”
Ponto 118. “Nós reafirmamos os compromissos relativos a ciência e tecnologia contidos na Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, na Agenda 21 e nos resultados de outras importantes Reuniões de Cúpula e Conferências da ONU”.
Tudo muito genérico, muito pró-forma. Não se fala em atualizar a Agenda 21, como um grande roteiro, aí sim, para a conquista do aclamado desenvolvimento sustentável. O Ponto 105 é particularmente preocupante, porque ratifica a proposta dos Estados Unidos, Brasil e outros países, de elaboração das Metas Globais de Desenvolvimento Sustentável. Poderão ser indicadas metas muito limitadas, diluindo a abrangência da Agenda 21. O esboço zero, enfim, foi ainda mais diluidor do potencial da Agenda 21 do que as próprias propostas, em sua maioria timidas, dos governos dos países.
Lobby forte – Os contrários à Agenda 21 poderão ter a aliança, na Rio+20, de outros lobbies igualmente poderosos, como dos defensores da energia nuclear e dos chamados “céticos do aquecimento global”. Depois do acidente de Fukushima, no Japão, no início de 2011, a recusa à energia nuclear aumentou muito em todo planeta. A Rio+20 pode ser a última chance para a indústria nuclear, com o argumento de que essa energia é “limpa” e de que seria uma ótima alternativa para combater o aquecimento global. Nada mais falso, na medida em que, como vários estudos já demonstraram, a indústria nuclear é suja já na extração e processamento de urânio, até a destinação dos resíduos radioativos, para a qual ainda não existe tecnologia adequada.
Por outro lado, o lobby dos “céticos do aquecimento global” demonstrou sua força nos Estados Unidos, particularmente no Congresso, que tem-se recusado a aprovar a proposta, ainda que limitada, do presidente Obama de corte nas emissões americanas de gases-estufa nos próximos anos.
O lobby dos “céticos” (na realidade, dos defensores da continuidade do uso dos combustíveis fósseis) é fortíssimo no Congresso norteamericano. Apenas em 2008, segundo levantamento do The Center for Public Integrity, um conjunto de 770 empresas e grupos de interesse foi responsável pela contratação de 2340 lobistas para atuar nos debates sobre a legislação para as mudanças climáticas. Este número representava que o número de lobistas na questão tinha aumentado em 300% desde 2003. Apenas em 2008 o lobby que critica a tese do aquecimento global por causas humanas gastou US$ 90 milhões, segundo a mesma fonte. Vários bancos de ação global integram o lobby.
Enfim, não faltarão poderosos interesses na Rio+20 para tentar derrubar o “espírito da Agenda 21”, que foi solenemente torpedeada por esses interesses nas últimas duas décadas. Ela nunca foi o melhor dos mundos, não reflete os desejos reais de transformação rumo à sustentabilidade plena, mas é um marco civilizatório e está por um fio.
A Agenda 21 foi o principal documento aprovado na Eco-92, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada em junho de 1992, no mesmo Rio de Janeiro que agora receberá nova importante conferência da ONU. Marcada por um profundo compromisso ético com a vida, em seus 40 capítulos a Agenda 21 detalha os princípios, conceitos e metas para a conquista do desenvolvimento sustentável nas áreas social, econômica e ambiental.
Nem de longe é o horizonte dos sonhos, muitas questões ali apontadas poderiam ser repensadas à luz do atual cenário global e até de inovações tecnológicas ocorridas nas últimas décadas. Mas o principal é o espírito, o olhar, a perspectiva da Agenda 21, no sentido de considerar a complexidade da temática socioambiental. Uma visão multidisciplinar, transversal, complexa dos problemas e da forma de resolvê-los. E é acima de tudo um fomento da esperança, a indicação de que é possível mudar o quadro global à primeira vista devastador e sem solução.
A Agenda 21 motivou processos nacionais, regionais e locais em várias partes do planeta, com resultados expressivos de mobilização e avanços concretos em muitos casos. Entretanto, o sentido da Agenda 21, a sua mensagem, sempre foram boicotados na prática pelos grupos e governos não muito compromissados com as mudanças necessárias e urgentes para a proteção da vida na Terra. “Falar em Agenda 21” dava alergia em muitos poderosos (e mesmo meros candidatos a poderosos), temerosos de assumir compromissos que não poderiam lhe render apoio de outros poderosos.
E agora as garras estão afiadas. Nos Estados Unidos, cresce o movimento anti-Agenda 21, apontada como uma barreira para o crescimento econômico e até como uma forma de censurar as liberdades individuais. Nada mais falso e demagógico. Mas essa articulação ganhou uma dimensão perigosa com a resolução aprovada em janeiro pelo Partido Republicano, condenando o que qualifica de “destrutiva e insidiosa natureza” da Agenda 21. Newt Gingrich, um dos candidatos nas primárias republicanas, já se expressou a respeito, fazendo coro a seus partidários.
Curiosamente essa deliberação do poderoso Partido Republicano não teve grande repercussão na imprensa (o “New York Times” publicou artigo sobre a questão) ou mesmo no segmento ambientalista mundial. Entendo que essa movimentação por lá deveria ser levada mais a sério, inclusive em função da proposta oficial dos Estados Unidos para a Rio+20, que inclui a elaboração de um décalogo dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), semelhantes aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODMs), cujo prazo expira em 2015. Seria um conjunto de metas simplificadas, a exemplo dos Oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, a serem alcançadas em 10 ou 20 anos. Seria, na prática, uma enorme diluição do que a Agenda 21 global representa para um avanço da consciência de cidadania planetária.
O Brasil também manifestou apoio à elaboração dos ODS, em sua proposta oficial à Rio+20. Outros países, contudo, como a Colômbia, fizeram questão de ressaltar a importância de que na Rio+20 a comunidade internacional renove os compromissos com a Agenda 21. A Colômbia também apoia os ODS, mas deixa claro que eles deveriam se inspirar na Agenda 21.
Infelizmente existe uma tradição na história das grandes conferências internacionais de se esquecer o que foi aprovado anteriormente. A primeira Conferência de Meio Ambiente da ONU, a de Estocolmo, em 1972, aprovou uma declaração final com propósitos avançadíssimos, como o fim das armas de destruição em massa e do colonialismo, ao lado da defesa dos direitos humanos, da educação ambiental e da ciência a favor da vida. Claro, muitos desses enunciados não saíram do papel ou foram solenemente desprezados. Tomara que a Rio+20 não passe para a história como o evento que sepultou a Agenda 21.
Documento oficial - O “esboço zero” do documento final da Rio+20 é muito genérico quando aborda a Agenda 21. Isso apenas aumenta as preocupações com relação ao futuro desse documento da Eco-92 que representou muita esperança para toda uma geração. São estas, e apenas estas, as referências à Agenda 21 no esboço, intitulado "O futuro que queremos".
Ponto 7. “Nós reafirmamos nosso compromisso com o prosseguimento da implementação da Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, Agenda 21, o Programa de Implementação Contínua da Agenda 21, a Declaração de Joanesburgo sobre o Desenvolvimento Sustentável e o Plano de Implementação da Cúpula Global sobre o Desenvolvimento Sustentável, o Programa de Ação de Barbados e a Estratégia Maurícia para Implementação. Os princípios da Eco-92 continuarão a guiar a comunidade internacional e servir como base para a cooperação, coerência e implementação dos compromissos assumidos”.
Ponto 12. “Nós notamos que o compromisso nacional com o desenvolvimento se aprofundou. Muitos Governos atualmente incorporam questões ambientais e sociais em suas políticas econômicas, e fortaleceram seu compromisso com o desenvolvimento sustentável e a implementação de Agenda 21 e de acordos relacionados através de políticas e planos nacionais, legislação e instituições nacionais, e a ratificação e implementação de internacional ambiental acordos”.
Ponto 44. “Nós reconhecemos que uma forte governança em níveis locais, nacionais, regionais e global é crucial para dar prosseguimento ao desenvolvimento sustentável. O fortalecimento e reforma da estrutura institucional deve, entre outras coisas:
a) Integrar os três pilares de desenvolvimento sustentável e promover um implementação de Agenda 21 e resultados relacionados, de modo consistente com os princípios de universalidade, democracia, transparência, custos acessíveis e responsabilidade, mantendo em mente os princípios da Eco-92, em particular as responsabilidades comuns, mas diferenciadas.
b) Oferecer uma orientação política coesiva e centrada nos governos para o desenvolvimento sustentável e identificar ações específicas de modo a cumprir a agenda de desenvolvimento sustentável através da promoção de uma tomada de decisões integrada em todos os níveis.
c) Monitorar o progresso na implementação da Agenda 21 e resultados e acordos relevantes, em níveis locais, nacionais, regionais e global”.
Ponto 49 (2ª alternativa). “O trabalho do Conselho (de Desenvolvimento Sustentável) deve se basear em documentos fundamentais sobre o desenvolvimento sustentável como a Agenda 21, os princípios da Eco-92 e resultados relacionados. O Conselho deve, entre outras coisas, realizar plenamente as funções e obrigações da Comissão para o Desenvolvimento Sustentável. Deve ser guiado pela necessidade de promover a integração dos três pilares de desenvolvimento sustentável, promover sua implementação efetiva em todos os níveis e promover coerência institucional efetiva. Deve ajudar a ampliar o envolvimento de todos os stakeholders, em particular Major Groups, no acompanhamento dos resultados da Rio+20”.
Ponto 105. “Nós reconhecemos que metas, objetivos e marcos são essenciais para a medição e aceleração do progresso na direção do desenvolvimento sustentável e concordamos em lançar um processo inclusivo para elaborar até 2015:
a) um conjunto de Metas Globais de Desenvolvimento Sustentável que reflitam um tratamento integrado e balanceado das três dimensões do desenvolvimento sustentável, sejam consistentes com os princípios da Agenda 21, e sejam universais e aplicáveis a todos os países, mas dando espaço para abordagens diferenciadas entre países;”
Ponto 118. “Nós reafirmamos os compromissos relativos a ciência e tecnologia contidos na Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, na Agenda 21 e nos resultados de outras importantes Reuniões de Cúpula e Conferências da ONU”.
Tudo muito genérico, muito pró-forma. Não se fala em atualizar a Agenda 21, como um grande roteiro, aí sim, para a conquista do aclamado desenvolvimento sustentável. O Ponto 105 é particularmente preocupante, porque ratifica a proposta dos Estados Unidos, Brasil e outros países, de elaboração das Metas Globais de Desenvolvimento Sustentável. Poderão ser indicadas metas muito limitadas, diluindo a abrangência da Agenda 21. O esboço zero, enfim, foi ainda mais diluidor do potencial da Agenda 21 do que as próprias propostas, em sua maioria timidas, dos governos dos países.
Lobby forte – Os contrários à Agenda 21 poderão ter a aliança, na Rio+20, de outros lobbies igualmente poderosos, como dos defensores da energia nuclear e dos chamados “céticos do aquecimento global”. Depois do acidente de Fukushima, no Japão, no início de 2011, a recusa à energia nuclear aumentou muito em todo planeta. A Rio+20 pode ser a última chance para a indústria nuclear, com o argumento de que essa energia é “limpa” e de que seria uma ótima alternativa para combater o aquecimento global. Nada mais falso, na medida em que, como vários estudos já demonstraram, a indústria nuclear é suja já na extração e processamento de urânio, até a destinação dos resíduos radioativos, para a qual ainda não existe tecnologia adequada.
Por outro lado, o lobby dos “céticos do aquecimento global” demonstrou sua força nos Estados Unidos, particularmente no Congresso, que tem-se recusado a aprovar a proposta, ainda que limitada, do presidente Obama de corte nas emissões americanas de gases-estufa nos próximos anos.
O lobby dos “céticos” (na realidade, dos defensores da continuidade do uso dos combustíveis fósseis) é fortíssimo no Congresso norteamericano. Apenas em 2008, segundo levantamento do The Center for Public Integrity, um conjunto de 770 empresas e grupos de interesse foi responsável pela contratação de 2340 lobistas para atuar nos debates sobre a legislação para as mudanças climáticas. Este número representava que o número de lobistas na questão tinha aumentado em 300% desde 2003. Apenas em 2008 o lobby que critica a tese do aquecimento global por causas humanas gastou US$ 90 milhões, segundo a mesma fonte. Vários bancos de ação global integram o lobby.
Enfim, não faltarão poderosos interesses na Rio+20 para tentar derrubar o “espírito da Agenda 21”, que foi solenemente torpedeada por esses interesses nas últimas duas décadas. Ela nunca foi o melhor dos mundos, não reflete os desejos reais de transformação rumo à sustentabilidade plena, mas é um marco civilizatório e está por um fio.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Falta ousadia e criatividade em ações sociais para o futebol brasileiro
Por José Pedro Martins
O futebol brasileiro tem perdido ousadia e criatividade, isso é um fato. Essas duas características históricas do grande esporte nacional não têm entrado em campo, do mesmo modo, em termos de ações sociais, e ambientais, da chamada responsabilidade social. A preparação para a Copa de 2014 pode ser um momento estratégico para mudar esse jogo.
O final de 2011 foi novamente marcado por várias "peladas" entre os craques, deste e outro lado do Atlântico, com nobres propósitos sociais. Destaque para o jogo já tradicional entre os Amigos do Zidane e de Ronaldo "Fenômeno" contra "O resto do mundo". Neste ano a estrela das "peladas sociais" foi, claro, Neymar.
Mas o futebol e os boleiros brasileiros poderiam fazer muito mais. São estrelas internacionais, têm impressionante poder de mobilização. Poderiam ser melhor assessorados no sentido de atuar mais em causas sociais e ambientais de médio e longo prazo e não apenas em ações pontuais. Cafu, Roberto Carlos, Raí e Leonardo (com a Gol de Letra) e outros poucos criaram suas fundações e institutos, apontando para ações mais permanentes. O exemplo poderia ser melhor seguido. Os clubes, em particular, poderiam e deveriam ser mais proativos nessa trilha. Seria gol de placa.
No dia 29 de novembro passado, foi aberta no Museu du Quai Branly, em Paris, a exposição L´Invention du Sauvage (A Invenção do Selvagem), uma iniciativa da Fundação Lilian Thuram, criada pelo jogador de futebol que integrou a seleção francesa campeã do mundo de 1998. A sua Fundação, que tem como lema Educação contra o Racismo, se dedica a vários projetos para combater a intolerância, o racismo, a discriminação.
A exposição A Invenção do Selvagem documenta, em aproximadamente 600 obras, o relato de uma história de degradação, a das crianças, mulheres e homens que, entre 1800 e 1958, foram exibidos em circos, zoológicos, feiras coloniais e outros espaços. Seres humanos de vários continentes, exibidos com vários propósitos, mas sempre sob a perspectiva do branco ocidental em relação ao estranho, ao diferente.
Lilian Thuram sempre teve uma postura crítica e combativa contra o preconceito de forma geral e no futebol em particular. A Fundação que leva o seu nome acredita na educação, na cultura, como forma de superação do racismo. "Ninguém nasce racista, torna-se um", comenta a organização, que apoia várias ações educacionais e culturais contra o racismo e o preconceito. O que os jogadores brasileiros - muitos deles já foram vítimas de racismo - não fariam com relação a esse tema, em um país multicultural como o nosso? Sim, jogadores brasileiros já abordaram o assunto, mas muito mais poderia ser feito, pela força que o nosso futebol desperta no imaginário coletivo global.
E com relação à área da biodiversidade, por exemplo? O Brasil tem a maior biodiversidade do planeta. Mas quantos jogadores de futebol já falaram do tema ou tiveram ações ligadas a ele? Já o zagueiro Carles Puyol, que não é exatamente um craque mas é lider do maravilhoso Barcelona e da seleção espanhola atual campeã mundial, é a mais nova estrela da campanha "Atua em favor da proteção dos orangotangos", um dos símios mais ameaçados de extinção. A campanha é fruto da parceria entre International Rescue Animal e Aliança das Nações Unidas para Sobrevivência dos Grandes Símios. A perspectiva é a de que, se nada de realmente sério for feito logo, os orangotangos das florestas de Sumatra e Bornéo desapareçam em 20 anos.
Outros exemplos pode ser citados. Mas por enquanto são suficientes para mostrar como nomes importantes do futebol também podem jogar muito bem em outros campos. Com a Rio+20, Copa de 2014 e Olimpíadas 2016, os futebolistas brasileiros e atletas em geral podem atuar mais em causas vitais para o futuro do planeta.
José Pedro Martins é jornalista e escritor, com vários livros em sustentabilidade, entre eles, "Jogo Verde, Jogo Limpo - 100 propostas para uma Agenda 21 Brasil do Esporte pela Sustentabilidade, o Turismo Sustentável, a Paz e a Diversidade Cultural" (Komedi, 2011)
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